De mulheres e bicicletas

No ano 2003 foi publicada em material do Ministério das Cidades (http://www.cidades.gov.br/secretarias-nacionais/transporte-e-mobilidade/arquivos/Livro%20Bicicleta%20Brasil.pdf) uma pesquisa sobre as pessoas que andam de bike regularmente na cidade de Santo André.  O dado que mais me chamou atenção é que dentre os ciclistas dessa cidade, apenas 0,5% são mulheres.

Não encontrei na publicação o número total de ciclistas, mas, seja qual for o número absoluto, percentual de mulheres é muito baixo. Pesquisas de outras cidades têm números como 23,5%  em Lorena/SP, 11,9% em Florianópolis/SC e 18,4% em Piracicaba.

Não sei ao certo a razão de as mulheres ciclistas serem tão poucas em André city (e não suponho que nas demais cidades do ABC seja diferente), mas uma das coisas que mais me incomoda e tira muito do prazer de andar de bike é o machismo. Certos homens em carros, motos, caminhões, bicicletas ou a pé, não importa o meio de transporte, insistem em provar sua masculinidade mexendo com as mulheres que por acaso se aventurem de bicicleta pelas ruas esburacadas do ABC.

Motociclistas, motoqueiros ou motoboys passam buzinando. Se tiver garupa, este vai, no mínimo, ficar olhando. Os caminhoneiros também gostam de buzinar, o que é muito pior, pois buzina de caminhão é algo que assusta.

Até ontem eu ainda me confortava tentando ignorar a maioria das manifestações, e calava-me frente as mais incisivas, culpando-me em seguida por não ter respondido à altura, sendo estúpida e tratando como cachorro quem faz o mesmo comigo.

No entanto, ontem à noite, por volta das 22h, quando eu voltava do trabalho para casa, de dentro de um golf (bem que eu sempre achei que golf era carro de playboy) dois moleques se puseram a mexer comigo, buzinaram e diminuíram a velocidade. Eu tomei coragem e respondi o menos delicadamente possível, e eles acharam tudo muito divertido, seguiram me acompanhando por algumas quadras e aproveitaram a brecha que eu dei pra incluir em seu repertório de opressão: “Você é braba, moça?” “Tá nervosa?”

Depois eles aceleraram pra ir embora, eu tentei ver a placa, mas não tive muito sucesso, então aproveitei a descida pra acelerar e tentar pegar on números que faltavam no próximo semáforo. No entanto, com todo o estresse da situação acabei não nos encontrando na fila de carros parados no sinal vermelho e segui adiante. Pouco tempo depois senti algo passar atrás de mim e se estilhaçar num poste. Talvez fosse um pedaço de gelo, não sei, mas quem jogou e passou por mim em seguida, rindo, foram os moleques no golf preto.

Cheguei em casa entre furiosa e perdida. Sem saber se havia algo que podia ser feito. HB decidiu ligar para a polícia (a essa altura eu tinha conseguido decorar todos os dados do carro) a qual se dispôs a informar as viaturas para que os parássem e dessem um susto, mas do que isso a polícia também não pode fazer.

Eu não sei se algo mais pode ser feito…se alguém souber, por favor me avise. Mas hoje saí de bike me sentindo muito mais vulnerável e cada vez que alguém mexia comigo parecia machucar mais fundo, porque agora eu sei que não posso fazer nada, que quanto estiver sozinha, infelizmente, calar é a opção mais segura.

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